Semiologia da Música | chiliconcarne.wordpress.com

“Um indígena africano toca uma melodia na sua flauta de bambu. O músico europeu terá muita dificuldade em imitar fielmente essa melodia exótica mas, quando ele consegue enfim determinar as alturas dos sons, ele está certo de ter reproduzido fielmente a peça de música africana. Mas o indígena não está de acordo pois o músico europeu não prestou atenção suficiente ao timbre dos sons. Então o indígena toca a mesma ária noutra flauta.
O europeu pensa que se trata de uma outra melodia, pois as alturas dos sons mudaram completamente em razão da construção do outro instrumento, mas o indígena jura que é a mesma ária. A diferença provém do facto de o mais importante para o indígena ser o timbre, enquanto que para o europeu é a altura do som.
O importante em música não é o dado natural, mas são os sons tal como são realizados, mas como são intencionados. O indígena e o europeu ouvem o mesmo som, mas ele tem um valor totalmente diferente para cada um, porque as concepções derivam de dois sistemas musicais inteiramente diferentes; o som em música funciona como elemento de um sistema.
As realizações podem ser múltiplas, o acústico pode determiná-las exactamente, mas o essencial em música é que a peça possa ser reconhecida como idêntica.”

Esta história foi contada por Roman Jakobson em 1932 e reproduzida pelo musicólogo Jean-Jacques Nattiez em “Fondements d’une Semiologie de la Musique“, de 1976.

Esta breve história serve, antes de mais, para explicar que existe uma impossibilidade de dissociar a música do contexto cultural. As diversas culturas possuem diferentes estilos de música, bem como diversas abordagens e conceitos do que esta é e do seu papel na sociedade. Maior ligação ao lado sacro ou ao lado humano, a funcionalidade ou a arte, a concepção teatral ou festiva, são diferenças básicas da forma como a música serve e é interpretada por diferentes culturas e grupos. Ao falarmos de um determinado tipo de música ou de uma determinada cultura de um ponto do globo, estamos invariavelmente a falar de um compromisso entre o músico e o público.

A história acima baseia-se numa antropologia musical, corrente existente desde o início do século XX, tendendo a provar que a escuta de uma determinada obra por alguém não pertencente ao mesmo círculo cultural do compositor, embora possa causar prazer, não terá como produto uma vivência dessa música da mesma forma que a terão os pertencentes a esses grupos ou etnias.

Este exercício de musicologia comparativa ou etnomusicologia é tanto mais importante quanto as formas musicais vão, no tempo presente, sendo percepcionadas pelos vários grupos a que se destinam. Falar de punk a um erudito poderá, na melhor das hipóteses, sugerir uma discussão em torno das técnicas ou produzir uma crítica por comparação a uma música do mesmo estilo. No entanto, punk e fadista, por exemplo, estarão sempre condicionados pelas expectativas que cada um deles – e o seu grupo – têm em relação à música e, por outro lado, estarão também condicionados pela dinâmica de grupo que exerce a pressão cultural e oferece a música em consonância.

Por fim, as indústrias culturais determinam os padrões que cada um dos grupos seguirá, o conceito de beleza, a intervenção artística do indivíduo - enquanto intervenção individual no conceito de beleza, usufruto ou criação desta, “furando” a barreira da simbologia – organizando as dinâmicas que sempre acabam por transformar a coisa mais independente em “mainstream”, nem que isso ocorra dentro do mais pequeno grupo possível.

Assim, não faz sentido dizer que o “metal” é melhor ou “mais verdadeiro” que o trip hop, ou que a música erudita é mais completa que o folclore. Todas elas têm o seu público, todas elas cumprem e determinam expectativas culturais, sendo que cabe a cada um de nós compreendê-las antes de julgá-las.

 

 

Um Comentário

  1. otimo texto


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  1. [...] do compositor, reinterpreta a “matéria musical” conforme os seus próprios critérios: o que conhece, a sua cultura e o seu estado [...]

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