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A BRILHANTE ORGANIZAÇÃO DE SONS E SILÊNCIO

Uma Definição de Música [I] | chiliconcarne.wordpress.com

“Concerto”, Lorenzo Costa, 1485-95

Apesar de a música ser intuitivamente reconhecida, não é tarefa fácil encontrar-lhe um conceito abrangente. A música contém e manipula o som, organizando-o no tempo. A música, “arte do efémero”, não pode ser completamente reconhecida pois ao tentar qualquer definição, quando lá se chega, já a música se modificou, evoluindo.

Englobando toda uma combinação de elementos sonoros aprecebidos pela audição, a música vem a ser definida mais consensualmente por uma combinação de sons e silêncios, numa sequência simultânea ou em sequências sucessivas que se desenvolvem ao longo do tempo, obtidas por variação de características do som – altura, duração, intensidade e timbre – que ocorrem sequencialmente [ritmo e melodia] ou simultaneamente [harmonia], sendo que ritmo, melodoa e harmonia são aqui considerados no seu sentido de organização temporal, sabendo da existência de harmonias ruidosas ou de arritmias em muitas peças musicais.

O consenso em torno da definição de música termina na medida em que os diferentes indivíduos colocam diferentes perguntas acerca desta, consoante se tratem de criadores, executantes, historiadores, filósofos, antropólogos, linguistas ou amadores:

  • Toda a combinação de silêncios é música?
  • Música é sempre arte?
  • A música existe antes de ser ouvida? A música é música por algum aspecto objectivo ou é ela uma construção da consciência e da percepção? Leia Mais »

Semiologia da Música | chiliconcarne.wordpress.com

“Um indígena africano toca uma melodia na sua flauta de bambu. O músico europeu terá muita dificuldade em imitar fielmente essa melodia exótica mas, quando ele consegue enfim determinar as alturas dos sons, ele está certo de ter reproduzido fielmente a peça de música africana. Mas o indígena não está de acordo pois o músico europeu não prestou atenção suficiente ao timbre dos sons. Então o indígena toca a mesma ária noutra flauta.
O europeu pensa que se trata de uma outra melodia, pois as alturas dos sons mudaram completamente em razão da construção do outro instrumento, mas o indígena jura que é a mesma ária. A diferença provém do facto de o mais importante para o indígena ser o timbre, enquanto que para o europeu é a altura do som.
O importante em música não é o dado natural, mas são os sons tal como são realizados, mas como são intencionados. O indígena e o europeu ouvem o mesmo som, mas ele tem um valor totalmente diferente para cada um, porque as concepções derivam de dois sistemas musicais inteiramente diferentes; o som em música funciona como elemento de um sistema.
As realizações podem ser múltiplas, o acústico pode determiná-las exactamente, mas o essencial em música é que a peça possa ser reconhecida como idêntica.”

Esta história foi contada por Roman Jakobson em 1932 e reproduzida pelo musicólogo Jean-Jacques Nattiez em “Fondements d’une Semiologie de la Musique“, de 1976.

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