
“Um indígena africano toca uma melodia na sua flauta de bambu. O músico europeu terá muita dificuldade em imitar fielmente essa melodia exótica mas, quando ele consegue enfim determinar as alturas dos sons, ele está certo de ter reproduzido fielmente a peça de música africana. Mas o indígena não está de acordo pois o músico europeu não prestou atenção suficiente ao timbre dos sons. Então o indígena toca a mesma ária noutra flauta.O europeu pensa que se trata de uma outra melodia, pois as alturas dos sons mudaram completamente em razão da construção do outro instrumento, mas o indígena jura que é a mesma ária. A diferença provém do facto de o mais importante para o indígena ser o timbre, enquanto que para o europeu é a altura do som.O importante em música não é o dado natural, mas são os sons tal como são realizados, mas como são intencionados. O indígena e o europeu ouvem o mesmo som, mas ele tem um valor totalmente diferente para cada um, porque as concepções derivam de dois sistemas musicais inteiramente diferentes; o som em música funciona como elemento de um sistema.As realizações podem ser múltiplas, o acústico pode determiná-las exactamente, mas o essencial em música é que a peça possa ser reconhecida como idêntica.”
Esta história foi contada por Roman Jakobson em 1932 e reproduzida pelo musicólogo Jean-Jacques Nattiez em “Fondements d’une Semiologie de la Musique“, de 1976.